Menu

Introdução

Definição

Doença provocada pela bactéria gram-negativa aeróbia Vibrio cholerae.

Afecta anualmente cerca de 2 000 000 de pessoas, causando mais de 100 000 óbitos.

Dos vários serotipos da bactéria o serotipo 01 é o responsável pela maioria das epidemias de cólera.

O serotipo 0139 causa quadro clínico semelhante ao serotipo 01 e foi identificado pela primeira vez na Índia em 1992. É responsável por epidemias em Bangladesh.

Epidemiologia

O homem é o único hospedeiro.

Moscas e outros insectos podem transportar a bactéria para a água e para os alimentos.

A transmissão ocorre por ingestão de água ou alimentos contaminados.

Crianças, idosos e indivíduos com baixa acidez gástrica (gastrectomizados, medicados com antiácidos gástricos, alcoólicos, etc.) são os mais vulneráveis.

A bactéria pode sobreviver durante 2 semanas no mar e nos mariscos refrigerados.

Nos outros alimentos geralmente a sobrevida é mais curta.

É inactivada pela maioria dos desinfectantes e por temperaturas superiores a 58˚C durante 15 minutos.

Período de incubação varia entre 2 horas a 5 dias e quanto mais curto mais grave é o quadro clínico.

Durante as epidemias e nas regiões endémicas há um elevado número de portadores assintomáticos.

Quadro clínico

Varia de ligeira diarreia, autolimitada, à diarreia aguda fulminante, aquosa, tipo água de arroz.

Após início da diarreia podem surgir vómitos.

Pode haver febre ligeira em crianças.

Nesta faixa etária há possibilidade de, além de fulminante desidratação, surgir grave e fatal hipoglicemia.

Grave desequilíbrio hidroelectrolítico (num adulto as perdas hídricas podem ultrapassar os 25 litros em 24 horas) e ácido básico que se instala rapidamente pode ser fatal em poucas horas.

Correcção deste desequilíbrio deve ter carácter emergente.

Cãibras são comuns devido à grave hipocaliémia.

Diagnóstico

Fora das epidemias deve ser admitido diagnóstico de cólera em todo o indivíduo com mais de 5 anos de idade com grave diarreia aguda aquosa, tipo água de arroz, e rápida desidratação.

Amostras de fezes devem ser enviadas rapidamente para laboratório de referência para microscopia e cultura.

Durante as epidemias o diagnóstico é essencialmente clínico.

Diagnóstico Diferencial

Doenças diarreicas agudas provocadas por agentes vários:

  • Rotavírus  
  • Escherichia coli
  • Campylobacter enteritis
  • Bacilus cereus

Tratamento

Com a maior rapidez possível deve ser elaborado um manual capaz de orientar as intervenções nos locais seleccionados para o tratamento, quer seja hospitais quer seja centros improvisados.

Descrição das intervenções:

1. Restabelecer o equilíbrio hidroelectrolítico e ácidobásico.

a) Casos ligeiros – abundante reidratação oral é suficiente:

Administração precoce de soluções orais, obtidas a partir de, quando disponíveis, saquetas pré-preparadas contendo proporções equilibradas de glicose, sódio e potássio, fornecidas para dissolução - 1 saqueta/1 litro de água desinfectada (2gotas de lixívia a 5% por cada litro, deixando actuar pelo menos meia hora) ou fervida.

Se não estiverem disponíveis saquetas pré-preparadas as populações devem ser treinadas para preparar alternativas durante as epidemias. Dois exemplos:

  • Solução composta por 1 litro de água desinfectada ou fervida, a que se adiciona açúcar (2 colheres de sopa) e sal de cozinha (1 colher de chá).
  • Solução de água de arroz, temperada com sal, a que se adiciona, por cada cerca de 1 litro, 1 colher de sopa de açúcar.

b) Casos graves - imprescindível administrar soros endovenosos.

Lactato de Ringer é o mais consensual.

Por não ter glicose e o seu teor em potássio ser relativamente baixo face às grandes perdas deste eletrólito nas diarreias muito graves, é necessário compensar a depleção destes elementos, adicionando glicose e cloreto de potássio.

Na falta de Lactato de Ringer podem ser usados soros com composição semelhante.

2. Antibioticoterapia oral

Deve ser reservada para casos graves. Diminui duração e volume das diarreias.     

Crianças:

 Azitromicina - dose única 20mg/Kg, máximo 1g.

  Alternativas: eritromicina - 12,5mg/Kg 6/6h, 3 dias;

                           doxiciclina 1 única dose 7mg/Kg (máximo300mg), ou

                           durante 3 dias: 1º dia 2mg/kg 12h/12h; 2º e 3º dias 2mg/Kg/dia, numa única dose diária.       

3. Antibioticoterapia endovenosa

Deve ser usada apenas em casos muito graves.

Prevenção

Fornecer água potável e saneamento básico às populações é fundamental.

Em caso de epidemia ou na suspeita desta, difundir informações (meios de comunicação audiovisuais, escolas, paróquias, mercados/feiras, empresas, autarquias,…) sobre o modo de transmissão da doença e os seguintes conselhos, que devem ser seguidos rigorosamente:

  • Nos locais em que a rede pública é incapaz de fornecer água potável beber só água engarrafada industrialmente, fervida ou desinfectada (2 gotas de lixívia a 5% por cada litro de água, deixando atuar pelo menos meia hora); frutas, legumes e saladas devem ser mergulhadas, antes de serem consumidas, durante meia hora, em água desinfectada com lixívia (10 gotas de lixívia por cada litro de água);
  • Comer só alimentos bem cozinhados e ainda quentes, especialmente os provenientes de rios, lagos ou mar e, quando tiver de guardá-los, tapá-los bem;
  • Lavar sempre bem as mãos antes de comer e preparar alimentos, e depois de defecar e cuidar de doentes;
  • Desinfectar a casa e utensílios com lixívia;
  • Usar sempre casas de banho ou latrinas e, na impossibilidade de acesso a estes apetrechos, enterrar as fezes após sua desinfeção com lixívia;
  • Roupas dos doentes devem ser fervidas pelo menos 5 minutos e secas ao sol, e se houver acesso à lavagem mecânica, programar a máquina para temperaturas elevadas;
  • Manter as casas e os quintais sempre limpos e enterrar o lixo;
  • Limitar o acesso à casa dos doentes com cólera e contacto com os seus utensílios;
  • Evitar banhos em rios, lagos e mar;
  • Proibir cerimónias de lavagem de cadáveres e festas fúnebres em que há distribuição de alimentos e bebidas.

Isolamento e quarentena são desnecessários.

Nas epidemias graves é aconselhável, se houver disponibilidade, administração precoce de 1 dose de doxiciclina a todos aqueles que estiveram a coabitar com um doente com cólera.

Vacinas orais, certificadas pela OMS, estão disponíveis.

A eficácia é de cerca de 70%.

Têm maior utilidade em equipas destacadas para prestar cuidados em campos de refugiados.

Quando o custo da vacinação pode ser suportado, sem prejudicar os recursos disponíveis para os cuidados de saúde em geral e para combate à cólera em particular, esta pode ser recomendada em zonas endémicas ou em alto risco de epidemia.

Nas epidemias ou surtos a importância da vacinação é muito reduzida, atendendo a que ela deve estar concluída pelo menos 1-2 semana antes do contacto com o agente infeccioso.

Bibliografia

  1. Davidson R, Brent A, Seale A. Oxford Handbook of Tropical Medicine. Oxford University Press, 2014.
  2. Kwan-Gett T, Kemp C, Kovarik C. Infectious and Tropical Diseases. Elsevier MosbY, 2009. 
  3. Longmore M, Wilkinson I, Baldwin A, Wallin E. Oxford Handbook of Clinical Medicine. Oxford University Press, 2014.

Deseja sugerir alguma alteração para este artigo?
Existe algum tema que queira ver na Pedipedia?

Envie as suas sugestões

Newsletter

Receba notícias da Pedipedia no seu e-mail