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Introdução

As medidas ambienciais para prevenção de alergia respiratória são um conjunto de procedimentos/atitudes que podem ser adotados pelo doente e sua família com o objetivo reduzir a frequência de sintomatologia alérgica, nomeadamente a asma e rinite, bem como a necessidade de fármacos para o controlo dos sintomas da patologia alérgica.(1)

Epidemiologia

A doença alérgica, nomeadamente a asma e a rinite, tem apresentado uma prevalência crescente ao longo dos anos, sendo a doença crónica mais prevalente em idade pediátrica, com um impacto significativo em termos de saúde pública e encargos com a saúde.(2)

 

História Clínica

Anamnese

O diagnóstico é essencialmente clínico. Deve suspeitar-se de asma na presença de episódios recorrentes de dispneia, pieira, tosse ou aperto torácico; e de rinite na presença de rinorreia serosa, prurido nasal, prurido ocular e esternutos frequentes, sobretudo matinais.

Devem ser questionados fatores desencadeantes como alergénios, exercício, frio, infeções virais, irritantes, emoções, fármacos, poluição e exposição ao fumo de tabaco, assim como a sazonalidade desses sintomas, a sua duração e a resposta à terapêutica instituída.

O eczema atópico pode constituir o primeiro sinal do início da marcha alérgica que precede a rinite e a asma na criança. Estas duas doenças encontram-se frequentemente associadas, sabendo-se atualmente que 75% dos asmáticos sofrem de rinite e que 50% dos doentes com rinite apresentam concomitantemente asma.

Deve ser questionada a história familiar de atopia, dado que a existência de um familiar com doença alérgica aumenta consideravelmente o risco da criança desenvolver doença alérgica (50% se ambos os progenitores tiverem doença alérgica).

Questionar o tipo de habitação, em zona urbana ou em zona industrial, rodeada de campos ou pinhal, arejada, soalheira, húmida; a existência de animais domésticos; o uso de sistemas de aquecimento e hábitos tabágicos familiares.

Exame objectivo

Apesar de o exame físico poder ser normal, podem ser evidentes alguns estigmas de patologia alérgica, nomeadamente a fácies atópica, com a presença de olheiras e linha de Dennie-Morgan.

Na asma, a pieira, sinais de dificuldade respiratória com polipneia, tiragem intercostal, sibilância bilateral e tempo de expiração prolongado na auscultação.

Na rinite alérgica é comum a fácies característica com obstrução nasal e respiração oral com a boca entreaberta, saudação alérgica e a prega atópica nasal. Na rinoscopia, pode ser evidente uma hipertrofia dos cornetos nasais e uma hiperémia da mucosa nasal.

Diagnóstico Diferencial

Na presença de sintomas agudos de rinite e/ou sibilância numa criança, outros diagnósticos poderão ser a causa da clínica, nomeadamente infeção respiratória, rinite não alérgica, doença do refluxo gastroesofágico ou aspiração de corpo estranho.

Exames Complementares

Na suspeita de patologia alérgica respiratória, nomeadamente rinite ou asma, podem ser realizados testes cutâneos (prick tests) ou doseamento sérico de IgE específicas para se identificar eventuais alergénios desencadeantes a que a criança está sensibilizada.

A avaliação da função respiratória por espirometria é o método de diagnóstico recomendado para suportar o diagnóstico de asma e avaliar a sua gravidade.

Na criança abaixo dos 5 anos, pela sua complexidade de realização, caso se considere justificado, deve ser considerado o envio da criança para centro de referência.

Tratamento

O tratamento baseia-se nas medidas ambienciais, explanadas na Secção Prevenção / Recomendações.

A terapêutica farmacológica poderá estar indicada e envolve, no caso da rinite, o uso de anti-histamínicos e corticóides tópicos nasais.

Na asma, o tratamento farmacológico inclui o uso de broncodilatadores, corticóides inalados, modificadores dos leucotrienos, e, consoante a evolução clínica e no caso de as medidas ambienciais e farmacológicas não forem suficientes para o controlo da doença, o eventual início de terapêutica de dessensibilização (imunoterapia).

Evolução

Apesar de serem doenças crónicas, a asma e a rinite alérgica são doenças controláveis.

Para o seu bom controlo é fundamental a adoção de um estilo de vida saudável, a evicção de eventuais fatores desencadeantes, o uso adequado da medicação de alívio e a adesão ao tratamento preventivo quando necessário.

Nesse sentido, é necessário o ensinamento da criança e seus familiares em consultas de acompanhamento regular a longo prazo, essenciais para um bom prognóstico da doença.

Recomendações

Toda a criança alérgica deve adotar, desde muito cedo, um estilo de vida saudável que promova a melhoria geral da sua saúde, com a prática regular de exercício físico, nomeadamente a natação na criança asmática, e a alimentação  rica em fruta e vegetais. (3)

É fundamental em todos os casos a evicção absoluta à exposição ao fumo do tabaco, mesmo antes da criança nascer, evitando o tabagismo materno durante a gestação. Após o nascimento, deve ser evitada a exposição passiva, em casa ou no carro, e ativa, nos jovens adolescentes, aconselhando-os a evicção tabágica. No caso de já terem iniciado tabagismo, incentivar a sua descontinuação e/ou eventualmente referenciá-los a consultas de cessação tabágica.

O uso de estratégias de relaxamento e o uso de exercícios respiratórios poderão ser úteis na diminuição dos sintomas de asma. (3)

Deve ser evitada a exposição a irritantes inespecíficos, evitando a permanência em espaços mal arejados e com cheiros intensos ou onde possam existir gases irritantes, nomeadamente garagens de automóveis, cabeleireiros ou perfumarias. Evitar ainda o excesso de plantas no interior da casa. (4)

Para além destas, outras medidas poderão estar indicadas, dependendo do alergénio a que a criança está sensibilizada. Apesar de algumas medidas serem controversas na literatura, reconhece-se que a adoção de algumas atitudes poderá ser útil na diminuição da sintomatologia de alergia.

Os alérgicos  aos ácaros, poderão beneficiar com as seguintes medidas:

  • Usar roupa da cama de fibra sintética, com lavagem no mínimo semanal a uma temperatura > 55ºC; evitar lençóis de flanela, cobertores felpudos, almofadas ou edredões de penas; usar colchão e almofada de espuma ou material sintético com revestimento anti-ácaros de plástico ou de vinil; expôr o colchão e almofada ao sol semanalmente; aspirar o colchão e estrado semanalmente;
  • Se necessário usar desumidificador para diminuir a humidade no interior da casa para menos de 50%; arejar as divisões da casa com abertura diária das janelas;
  • Escolher um quarto amplo, com paredes lisas e laváveis; usar cortinas simples, finas e facilmente laváveis ou estores; optar por mobiliário minimalista, retirando peluches, bonecos, livros e outros objetos não essenciais; remover alcatifas e reposteiros do quarto; aspirar o soalho e carpetes semanalmente; limpar o pó dos móveis diariamente com um pano húmido ou aspirador; evitar sprays de limpeza, vassoura ou espanador; evitar panos ou fraldas a cobrir a face da criança durante a noite;
  • Evitar a aquisição de animais domésticos (sobretudo com pêlo ou aves) em doentes sensibilizados.

Nos alérgicos aos pólenes e alergénios exteriores:

  • Preferir o interior de casa nos dias de vento mais intenso; manter as janelas e portas fechadas.
  • Em caso de viagem de carro/comboio, manter as janelas fechadas; conhecer das árvores e os arbustos da região a que a criança é sensível; usar máscaras faciais ou óculos protetores no caso de passeio em prados ou relvados.
  • Na época polínica,  ao chegar do exterior,  se possível,  deverá mudar de roupa e lavar o cabelo.

Bibliografia

  1. Schuler IV CF, Montejo JM. Allergic Rhinitis in Children and Adolescents. Pediatr. Clin. North Am. [Internet]. 2019;66:981–993. Available from: https://doi.org/10.1016/j.pcl.2019.06.004.
  2. Zhang L, Zhang Y. Increasing prevalence of allergic rhinitis in China. Allergy, Asthma Immunol. Res. 2019;11:156–169.
  3. Global initiative for asthma. Global strategy for asthma management and prevention, 2019
  4. Wikstén J, Toppila-Salmi S, Mäkelä M. Primary Prevention of Airway Allergy. Curr. Treat. Options Allergy. 2018;5:347–355.

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