Mamilos invertidos
Introdução
Definição
Designa-se por mamilo invertido aquele que não se projeta além da superfície da aréola.
Os termos “retração mamilar” e “inversão mamilar” são frequentemente utilizados como sinónimos. No entanto, o primeiro refere-se à invaginação parcial do mamilo, enquanto o segundo compreende a invaginação total.(1) Importa ainda distinguir um mamilo invertido umbilicado de um mamilo invertido invaginado. Ao contrário do segundo, o mamilo umbilicado é passível de everter com tração manual.(1)
Epidemiologia
A inversão mamilar pode ser congénita ou adquirida. Embora não existam dados na população pediátrica, a inversão mamilar congénita está presente em 3% das mulheres entre os 19 e os 26 anos. A inversão mamilar adquirida pode dever-se a causas benignas ou malignas, sendo estas últimas muito raras em idade pediátrica.(2)
História Clínica
Anamnese
Na anamnese importa pesquisar informações que sugiram uma causa patológica para a inversão mamilar:
- Trata-se de uma alteração congénita ou adquirida – A inversão mamilar congénita é, na maioria dos casos, esporádica, benigna e bilateral. No entanto, algumas alterações genéticas podem estar associadas a esta alteração. (1)
- Mastalgia não cíclica – Habitualmente mais acentuada na região sub ou periareolar , pode estar associada a mastite periductal, abcesso subareolar, fístulas ou ectasia ductal. (4)
- Antecedentes de mastite(s) ou abcesso(s) mamário(s) – A inflamação crónica dos ductos e tecido periductal pode resultar em fibrose e consequente inversão mamilar.
- Antecedentes de cirurgia mamária – A inversão mamilar pode ser sequelar a uma cirurgia mamária prévia.
- Tabagismo – Trata-se de um fator de risco importante para mastite periductal, que, por sua vez, é uma causa de inversão mamilar adquirida.
Exame objetivo
A inversão mamilar é classificada segundo a sua aparência e resposta à tracção manual. O sistema de classificação mais utilizado é o de Han e Hong, que a subdivide em três níveis (1, 3):
- Nível 1: O mamilo é facilmente evertido sob tracção e mantém-se alguns minutos nesta posição antes de voltar a inverter.
- Nível 2: É o nível mais frequente. É possível everter o mamilo manualmente, com alguma dificuldade, e este tende a inverter rapidamente.
- Nível 3: É o nível menos frequente. O elevado grau de fibrose e retracção dos ductos torna muito difícil ou mesmo impossível everter o mamílo.
Ao exame objetivo devem ser pesquisados sinais que possam indicar a causa subjacente:
- Atraso mental, autismo, dismorfismos faciais, anomalias genitais, alterações da ulna e baixa estatura podem estar presentes no contexto de algumas alterações genéticas associadas a inversão mamilar. (1)
- Corrimento mamilar – A ectasia ductal pode causar inversão mamilar e cursa habitualmente com corrimento, habitualmente espesso, podendo ter diferentes cores desde amarelado a verde-acastanhado. (1,4)
- Sinais inflamatórios locais: processos inflamatórios e infecciosos da mama, como mastites, abcessos e fístulas periareolares, podem ser causa de inversão mamilar. (1)
- Febre – Pode ocorrer nos casos de mastite ou abcessos mamários.
- Massa palpável peri ou subareolar – Deve levantar a suspeita de ectasia ductal, mastite periductal, abcesso subareolar ou fístula periareolar. Pode desaparecer após drenagem e reaparecer algumas semanas mais tarde. Como já foi referido, a etiologia maligna é rara nesta faixa etária. (1, 4)
Diagnóstico Diferencial
A inversão mamilar congénita é benigna, habitualmente bilateral e, na maioria dos casos, os pacientes apresentam mamilos umbilicados e não invaginados.(1) Os estudos mais recentes defendem que esta se deve a um encurtamento dos ductos mamários por um desenvolvimento insuficiente.(3)
Apesar de a maioria dos casos serem esporádicos, algumas doenças genéticas podem estar associados a inversão mamilar, nomeadamente a delecção do 2q37, o síndrome ulnar-mamário e os defeitos congénitos da glicosilação do tipo Ia.(1)
A inversão mamilar adquirida tem, na maioria dos casos, uma etiologia benigna, que compreende os seguintes diagnósticos diferenciais:
- Sequência da doença inflamatória associada aos ductos mamários (SDIADM):
A designação SDIADM engloba diferentes condições, com diferentes apresentações clínicas, sendo que qualquer uma pode cursar com inversão mamilar:- Ectasia ductal: A inversão mamilar está presente em 48% das doentes. Ao contrário da etiologia maligna, a inversão do mamilo não envolve a aréola e o mamilo é, habitualmente, facilmente evertido. Clinicamente, caracteriza-se por um endurecimento subareolar sem sinais inflamatórios que pode, ou não, estar associado a um corrimento mamilar. No entanto, em muitos casos, pode ser assintomática.(4)
- Mastite periductal: Caracteriza-se por mastalgia não cíclica, presente em 44% dos casos, associada a uma massa subareolar com sinais inflamatórios e inversão mamilar em 48% dos casos.(4)
- Abcesso subareolar e fístula periareolar: A inversão mamilar é mais frequente nos abcessos recorrentes, sobretudo quando associados a fístula, estando presente em quase metade das mulheres com abcessos fistulizados.(1)
Os mamilos umbilicados, o tabagismo e o défice de vitamina A são fatores de risco conhecidos para estas infeções mamárias recorrentes. (4)
- Outras doenças inflamatórias: A fibrose periductal pode desenvolver-se a partir de doenças inflamatórias raras da parede torácica, nomeadamente, necrose gorda ou doença de Mondor (tromboflebite da veia toracoepigástrica). No entanto, ambos os fenómenos são raros.(1)
- Sequela pós-operatória: Os procedimentos cirúrgicos da mama são pouco frequentes em idade pediátrica. No entanto, a inversão mamilar pode ser sequelar a uma cirurgia ou biópsia da mama. (1)
- Etiologia maligna: Carcinomas centrais ou subareolares podem cursar com inversão mamilar. Nestes casos, a inversão é, habitualmente, assimétrica e associa-se a distorsão da aréola. No entanto, esta etiologia é rara em idade pediátrica. (1,2)
Exames Complementares
O diagnóstico da inversão mamilar é, essencialmente, clínico.
Imagiologia
A ecografia mamária pode ajudar a esclarecer a etiologia de um nódulo mamário quando este é clinicamente duvidoso.
A mamografia não está recomendada em idade pediátrica uma vez que a elevada densidade de tecido glandular nesta faixa etária torna o exame difícil de interpretar.
A ressonância magnética nuclear (RMN) pode ser útil quando a ecografia não é conclusiva.
Anatomia Patológica
Qualquer lesão suspeita na ecografia ou RMN deve ser submetida a biópsia e estudo histológico.
Tratamento
O tratamento do mamilo invertido deve ser sempre dirigido à causa identificada.
Cirurgia
Apesar de a maioria dos casos de inversão mamilar ser benigna, o seu impacto psicológico e funcional pode motivar o desejo de uma correção cirúrgica. O objetivo da correção é restaurar a anatomia preservando a função do sistema ductal e a sensibilidade mamária, com o mínimo de cicatrizes visíveis e com uma baixa taxa de recorrência. (3)
Existem técnicas de correção com e sem preservação dos canais galactóforos. As primeiras podem ainda subdividir-se em invasivas e não invasivas.
- Técnicas com preservação dos canais (1, 3):
- Não invasivas
Técnicas não invasivas incluem sistemas de sucção e expressão da base do mamilo com bandas de látex. Estas técnicas resolvem temporariamente a inversão mamilar de forma a permitirem a amamentação. - Invasivas
A realização de uma sutura em bolsa de tabaco na base do mamilo, promovendo a sua expressão, pode ser eficaz nos casos menos graves.
A divisão ductal selectiva consiste em traccionar o mamilo com um gancho e dissecar verticalmente o tecido fibroso entre os ductos que impedem a eversão do mamilo promovendo a sua libertação. Para manter o mamilo na posição correcta, a técnica é finalizada com uma sutura de tracção de nylon que é mantida durante alguns dias. Este procedimento pode ser executado por via aberta ou endoscópica.
Outra técnica descrita consiste na utilização de retalhos cutâneos areolares para promover a expressão da base do mamilo e, assim, a sua eversão.
Técnicas percutânea minimamente invasivas consistem na lise do tecido fibroso com recurso à técnica da subcisão ou a lise com agulha.
- Não invasivas
- Técnicas sem preservação dos canais galactóforos (3):
Estas técnicas compreendem a exérese dos ductos e do tecido fibroso que os envolve, seguido da projecção mamilar com recurso a retalhos cutâneos ou sutura em bolsa de tabaco da base do mamilo. Estas técnicas não devem ser utilizadas em jovens uma vez que impedem a amamentação.
A escassez da literatura publicada não permite concluir sobre a superioridade de um tipo de tratamento em relação aos outros em termos de eficácia ou recorrência. Segundo a revisão de Hernandez Yenty et al, que incluiu 511 mamilos com um período de follow up de 6 a 69 meses, a recorrência parece ser superior nos procedimentos com destruição dos canais galactóforos (9,9% vs 0,6%). No entanto, o reduzido nível de evidência dos estudos incluídos não permitiu tirar conclusões definitivas. Em termos de complicações pós-operatórias, os estudos avaliaram a incidência de necrose mamilar, hematoma, infecção e alterações da sensibilidade sendo que apenas esta última foi registada, em 3,9% dos casos. (3) Tendo em conta os dados obtidos, os autores concluem que devem ser preferidos os procedimentos menos invasivos que permitem a preservação dos ductos.
Nos casos de mamilo invertido associado a ectasia ductal, a exérese do ducto deve ser efectuada nos casos de sintomas recorrentes.
Antibioterapia
Nos casos de abcessos periareolares ou mastite periductal deve ser instituída a terapêutica antibiótica adequada (Ver Mastalgia).
Algoritmo clínico/ terapêutico

Evolução
O prognóstico da inversão mamilar depende da patologia que lhe está subjacente. Uma vez que a etiologia maligna é rara e as causas congénitas associadas a síndromes genéticos constituem um grupo minoritário destas doentes, o prognóstico é habitualmente favorável.
Os episódios de mastites ou abcessos de repetição ou sintomas recorrentes associados a ectasia ductal podem ter um impacto significativo na qualidade de vida das doentes.
A cirurgia de correção deve ser oferecida sempre que esta alteração tenha um impacto negativo psicológico ou funcional na vida da doente.
Glossário
Mamilo invertido – Mamilo que não se projecta além da superfície da aréola.
Sequência da doença inflamatória associada aos ductos mamários (SDIADM) – Termo que designa o processo que resulta da inflamação recorrente dos canais galactóforos.
Ectasia ductal – Dilatação dos canais galactóforos
Mastite – Processo inflamatório da mama
Bibliografia
- Killelea B, Sowden M. Nipple inversion. www.uptodate.com (Acedido em 6 de Janeiro de 2017)
- Greydanus DE, Stockburger S, Omar HA., "The Adolescent Breast" (2012). Pediatrics Faculty Publications. 103.
- Hernandez Yenty QM, Jurgens WJFM, van Zuijlen PPM, de Vet HCW, Verhaegen PDHM. Treatment of the benign inverted nipple: A systematic review and recommendations for future therapy. Breast. 2016;29:82-9.
- Utora DA, Morenoa P, Granadosb MC, Reinaa R. Review of the current techniques in use for the treatment of mammary duct-associated inflammatory disease sequence (MDAIDS) in males taking into account two new cases. Breast Dis. 2011-2012;33(4):149-57
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